Olá!
Nesta época do ano eu sempre me lembro de uma música que Vinícius de Moraes compôs em homenagem à Revolução dos Cravos, ocorrida em Portugal, em 1974, e que trouxe a liberdade ao povo português. Minha lembrança se dá em função de parte da letra, que diz assim:
As cores de abril
Os ares de anil
O mundo se abriu em flor
E pássaros mil
Nas flores de abril
Voando e fazendo amor
O canto gentil
De quem bem te viu
Num pranto desolador
Não chora, me ouviu
Que as cores de abril
Não querem saber de dor
Em abril, é primavera em Portugal. Por aqui, estamos vivendo o outono.
O verão virou o calendário em março e, aos mais atentos, uma mudança na cor do dia, às 06:00 da manhã, anunciou a mudança de estação assim descrita na poesia de J.G.de Araújo Jorge:
Para dentro dos olhos vejo outono
Paisagem cor de cinza
E este ar de sono..
As tintas da poesia que faz o poeta refletem as cores que lhe colorem a alma, conforme está o colorido de suas estações pessoais, e não necessariamente segundo o que pode ser observado, externamente, na natureza.
Bem, persistindo em minha mania de fazer perguntas, eu pergunto: - quais são as cores de sua alma neste começo de mês que traz na agenda o anúncio da ressurreição, da vitória sobre a morte, da passagem judaica que enaltece a libertação e fuga da escravidão do Egito para a liberdade na terra prometida?
As referências à última ceia de Jesus Cristo acendem, no coração dos cristãos, a esperança de que seja verdadeira a informação sobre as muitas moradas da casa do Pai para onde, um dia, se dará a volta dos filhos fiéis e pródigos.
Esta idéia é reconfortante, é um consolo em todos os tempos e é uma das bênçãos pascais a todos que se encontram ocupados em dar conta dos inúmeros desafios diários que compõem o mosaico da vida.
Isso se dá com você?
Este sentimento gerado nas entranhas da fé que prega a possibilidade da transcendência do sofrimento para o renascimento na paz, representado por liturgias e teatros populares, encontra abrigo em você?
Os encontros familiares, regados a chocolates, lhe fazem sentido neste momento em que você talvez esteja em feroz batalha com os seus dragões?
É fácil falar que tudo tem o sentido que se dá, mas, no fundo, as valorizações estabelecem relação direta com as circunstâncias da vida que se tem, com as necessidades, os sonhos, ou as desilusões que deixam suas pegadas no caminho da própria história. Algo que sempre foi importante e alegre pode deixar de sê-lo, dependendo do momento que se atravessa.
Por isso a Páscoa, embora celebração coletiva da ressurreição, e por isso festa, e por isso comemoração, talvez não seja assim se sondarmos, com esmerada lente, recantos individuais.
Conta-se que o distraído tropeçou em uma pedra que o bruto usou como projétil. O empreendedor, pegando-a, construiu, enquanto o camponês fez dela seu assento. Para meninos ela foi brinquedo e como poesia nasceu das penas de Drummond. Com ela David matou Golias e Michelangelo esculpiu as mais belas esculturas.
O que pretendo, com esta historinha, é reforçar a compreensão de que os nossos tropeços, os nossos projéteis, as nossas construções, os nossos lugares de descanso, os nossos objetos lúdicos, as nossas poesias, os nossos ódios e as nossas esculturas são pessoais. Para serem válidos como coisas da vida, que servem ao fortalecimento de nossa capacidade de superação, precisam ter a nossa cara. Precisam caber no espaço das verdades tecidas ao longo de nossas experiências. Não basta ser bom para todos. Não adianta ser comemorado pela maioria. Não resolve ser festa universal se o universo de nosso Eu não encontra razão para comemorar. E como é duro precisar explicar isso, não é?
As pessoas querem saber porque você não está rindo, porque você não está agradecendo, porque você não está celebrando este momento tão caro à humanidade.
Muitos não estão, de fato, interessados em se inteirar de seus porquês. O que eles desejam é fazer você sair dessa nem que seja a fórceps. É que ninguém lida bem com a tristeza.
Tristeza incomoda e é sempre uma ameaça social uma vez que pode abrir as comportas das tristezas de todos. Mas, é humana a boa intenção, porque sempre há uma boa intenção, principalmente quando o forro sobre a qual se assenta é o amor.
Quem ama se entristece ao ver triste quem ama. Quer a alegria do ser amado não apenas para junto se alegrar, mas, em primeiro lugar, pela própria alegria de quem ama.
Por isso eu desejo, neste abril, que embora o outono do calendário, se faça primavera no coração de vocês, pacientes, familiares, amigos, profissionais e diretoria da IMF.
Que nesta Páscoa vocês celebrem o renascimento da esperança em dias melhores, sejam quais forem as suas adversidades. Que ela alcance a dimensão de seus sonhos para que possa abrigar, plenamente, a proporção de suas necessidades.
Que a proposta da ressurreição percorra territórios íntimos que podem ser acessados apenas no silêncio da individualidade.
Sempre, após tempestades, em algum lugar se forma um arco íris.
Que ele se forme em suas almas.
Abraços a todos e até a próxima
Gláucia Telles Sales