Olá
Usando como pedra angular para este artigo, até por quanto é singela, a mensagem do apóstolo Paulo aos Corintos - ainda que eu falasse a língua dos homens e dos anjos, se não tiver amor serei como bronze que soa, ou como címbalo que retine; ainda que eu tenha o dom da profecia e conheça todos os mistérios e toda a ciência; ainda que eu tenha tamanha fé a ponto de transpor montes, se não tiver amor, nada serei – digo a vocês o seguinte:
- ainda que eu tenha as melhores intenções e o que é considerado o maior dos afetos, referido pelo apóstolo em sua citação, se eu não agir eu nada terei. Não informarei o que pretendo a quem seja meu destinatário. Não informarei o que eu sinto a quem endereço meus sentimentos.
Intenções são avaliadas pelos resultados de sua concretização. Afetos são aquilatados pelos benefícios e/ ou malefícios que ocasionam a partir do destino que cumprem.
Não adianta pretender sem fazer. Uma idéia na cabeça é apenas uma idéia na cabeça.
Não adianta amar sem entregar. Um sentimento guardado é apenas um sentimento guardado.
Imagine o que aconteceria se alguém comprasse sementes de maravilhosas plantas frutíferas pensando nas colheitas futuras, mas não as plantassem? Nada, em relação à colheita.
Continuaria a existir, apenas, maravilhosas sementes de plantas frutíferas. Não haveria transformações.
É necessário que se dê a intervenção de ações para que as transformações aconteçam. Por isso diz o ditado popular que “de boas intenções o caminho do inferno está cheio”.
Existe, também, uma outra situação: planejar a ação em uma direção e ela se dar em outra. Mais ou menos como quando uma pessoa despede-se para ir embora da casa de alguém, fala sobre sua pressa, os mil afazeres que a esperam e, quando chega no carro, percebe que esqueceu a chave do carro cochilando no sofá da sala. Volta e aproveita para esticar a conversar por mais alguns minutos. Às vezes, entra e senta novamente, evaporando-se todas as urgências.
Uso este exemplo banal para referir-me aos conteúdos ocultos, que dão o tom não planejado nas telas diárias que cada um pinta. Planeja-se o verde, mas, sem querer, pega-se a bisnaga de tinta azul.
É comum acontecer os “eu não queria isso”, “saiu tudo diferente do que eu preparei”. Não estou me referindo às surpresas que a vida apronta, mas, às tantas intenções que originalmente se tem e que, quando levadas a termo, chegam a resultados tão diversos do intencional, quase que resultados opostos.
Por exemplo, alguém justifica, desconcertado, “fiz por amor”, mas gera situações que mais parecem nascidas de um “fiz por assumido ódio”.
Situações assim servem para lapidar a conclusão secular de que é complicado, mesmo, lidar com o ser humano e suas verdadeiras motivações, pois muitos dos desejos humanos são desconhecidos. Repousam em algum berço inconsciente à espreita de um descuido da vigília atenta para poderem escapar e se fazerem ver à luz da realidade. Quando conseguem, escancaram as divisas que existem entre a vida desejada e a vida possível de se viver. Aliás, está aí outro grande nó, a tal de realidade.
Mas o que é, afinal, realidade? De que matéria se constitui o que é real? E onde é que eu pretendo chegar?
Bem, tudo começou um dia desses, quando atendi uma pessoa que, resumidamente, me disse o seguinte: eu quero encontrar, mas não procuro; eu quero que me vejam, mas não me mostro; preciso que entendam o que eu sinto, mas eu não falo. Eu sei que eu faço tudo de um jeito que não é o jeito que eu queria ter feito.
Alguém pode perguntar, com sensata objetividade: - que coisa maluca é essa? Por que não procura, se quer encontrar; não se mostra, se quer ser visto; não fala, se quer que entendam o que sente; não faz do jeito que quer fazer? Se faz, é porque quer.
Bem, usando lentes mais subjetivas e sensíveis, que costumam enxergar por uma outra ótica de sensatez, vi uma pessoa fazendo não sei se exatamente o que queria ter feito, mas, seguramente, o que conseguiu fazer, e isso é difícil de ser entendido pelos tantos raciocínios pragmáticos quanto ao funcionamento da vida. Aqueles que não admitem branquinhos, rascunhos e não incentivam o uso de lápis e borracha. Para quem o único lugar que serve é o primeiro, embora se camuflem em um diplomático discurso tolerante de que o que vale mesmo é competir.
Pessoas assim não abrem espaço para dúvidas. Dúvidas jamais.
A vida transcorre segundo uma cartilha de obrigatórias certezas absolutas.
Tenho pena de quem foi criado sob cartilhas assim. Normalmente são as pessoas mais frágeis e inseguras que conheço.
Como elas não podem errar, na dúvida sob o que seria acertado fazer, muitas vezes simplesmente não fazem.
Pensam, planejam, arquitetam isso e aquilo, criticam duramente os que se arriscam, enquanto elas passam a vida imersas em construções mentais. Sempre há um empecilho, um “se isso, se aquilo”, ou um “mas isso, mas aquilo” na hora em que se vislumbra uma oportunidade de ação.
Tenho certeza de que vocês conhecem de perto algumas dúzias de gente assim. Eu conheço e percebo que sempre há uma angústia vazando de algum canto de suas almas, mas, este é papo para outro artigo, assim como a questão da realidade.
Deixo vocês com a letra de uma música de Sueli Costa e Abel Silva que retrata bem um dos resultados de intenções que não passaram disso.
Só uma coisa me entristece
O beijo de amor que não roubei
A jura secreta que não fiz
A briga de amor que não causei
Nada do que posso me alucina
Tanto quanto o que não fiz
Nada do que eu quero me suprime
De que por não saber ainda não quis
Só uma palavra me devora
Aquela que meu coração não diz
Só o que me cega, o que me faz infeliz
É o brilho do olhar que não sofri
Até a próxima
Gláucia Telles Sales