Olá
No momento em que começo este artigo estou ouvindo a música O que é o Amor, de Danilo Caymmi e Dudu Falcão, na voz de Selma Reis, uma belíssima inspiração que compõe a trilha sonora de uma mini série antiga.
Ouvir a canção não foi obra do acaso. A escolha foi intencional, conduzida pelas mãos da história que eu iniciei com vocês neste espaço há 50 artigos atrás, começando em novembro de 2005. Uma história de amor, uma vez que a condição de amar foi a única capaz de me fazer aceitar tamanho desafio. Eu sempre escolhi ficar de fora de algumas grandes batalhas.
Mesmo concebendo o ser humano como psicossomático, sujeito à trama de caprichos de sua natureza biológica e psíquica, em ininterrupto amadurecendo pelas experiências com o meio ambiente, jamais tive como ideal profissional me dedicar a pessoas portadoras de alguma doença física grave, que dirá algum tipo de câncer.
Quem não leu os primeiros artigos, mais especificamente o terceiro, talvez ainda não saiba por qual porta eu entrei na causa do mieloma. Segue um recorte da explicação:
... eu entrei pela mesma porta através da qual todos vocês, que estão lendo este artigo, entraram; ou como portadores de mieloma, ou como familiares...
... Por volta de 9 anos atrás recebi a notícia de que uma cunhada minha estava com mieloma. A estrutura de nossa família ficou abalada. Minha cunhada, além de ser um membro importante do clã, era uma figura de forte presença em nossas festas por suas particularidades, como, por exemplo, dançar e cantar “Trem das Onze”. Foi depois de uma destas festas que a notícia chegou até mim... Foi assim que entrei nessa...
Só que antes, no primeiro artigo, eu deixei claro o seguinte:
... eu não quero escrever sobre doença e, na verdade, nem sobre doente... eu quero escrever para a pessoa que, de repente, soube-se portadora de uma doença grave que, por ainda ser incurável, mesmo que tratável, a coloca sob a ameaça de um risco fatal.
Vocês que me acompanham pelo Espaço de Vida e pelos Seminários Para Pacientes e Familiares, se tornaram esta pessoa. Uns com rosto, com nome. Outros preservando-se no anonimato, mas todos tendo em comum uma história com o mieloma e sabendo que eu gosto de abordar, dentre outros temas, questões de fé, e por três ângulos:
1. Segundo alguns estudos científicos a qualidade de vida de pessoas portadoras de alguma doença grave, mas que tem uma forte fé religiosa, é melhor do que a qualidade de vida de pessoas portadores de alguma doença grave e que não tem nenhum tipo de fé... a fé, alimento da alma, parece ser um importante fator coadjuvante no tratamento de doenças de todas as naturezas.
2.... a fé do paciente no médico pode fazer muita diferença sobre o resultado do tratamento por ser, dentre outras razões, uma ferramenta poderosa na construção da parceria médico-paciente... o médico pode ser o melhor remédio tomado em goles pelo paciente... goles de confiança e esperança a cada consulta, a cada retorno, a cada internação.
3. ... a fé da pessoa nela mesma, a que eu considero a mais difícil de ser cultivada. Quando a pessoa precisa ter fé em si mesma e em sua capacidade de vencer uma doença grave... o buraco é mais embaixo ... A lembrança da doença se faz presente em cada pensamento, em cada ação, torna-se a bússola que passa a orientar todas as decisões de vida a serem tomadas.
Fiéis a cada leitura, em algumas discordando fervorosamente, em outras contemplando suas questões refletidas em minhas palavras, vocês também já sabem que a moldura fixa de minha intenção, na qual eu troco apenas as telas, é a minha humanidade. Por isso, também já escrevi:
... os temas que abordei até hoje foram variados e nem sempre sobre mieloma. Aliás, talvez nenhum sobre mieloma, mas todos para pessoas. Pessoas que continuam, a meu ver, sendo o maior bem que existe no mundo. Nada as substitui.
Foi de uma delas que eu ouvi a seguinte pergunta, um dia:
Você promete que eu vou conseguir sofrer menos e superar tudo? Promete que ainda dá tempo de fazer alguma coisa para eu ser feliz e achar que a vida vale à pena?
A única promessa que eu pude fazer, comovida por este pedido carregado de angústia, foi a de nunca desistir de tentar Em relação ao mieloma, nunca desistir da esperança na possibilidade da cura.
Não é fácil manter promessas, principalmente quando são desta natureza. Às vezes sinto-me um Dom Quixote lutando contra moinhos de vento. As notícias tristes são fortes e constantes. Cada recidiva sinaliza com as ameaças comuns à batalha.
Cada partida planta um crepúsculo de saudade e de desânimo. Por isso não é fácil manter promessas. Mas, compromisso é compromisso e eu assumi. Assumi, em primeiro lugar, com Christine que usou a sua própria dor para se fortalecer e, em gesto louvável, trouxe a IMF para o Brasil e América Latina garantindo a continuidade do sonho de Brian Novis de que ninguém que tem mieloma passe por isso sozinho.
Assumi com vocês, razão maior de toda persistência.
Vocês, inúmeras Fênix, que através de seus retornos renovam em mim a esperança de que conseguirei andar um pouco mais pelos caminhos desta causa.
Quanto? Não sei, mas será um passo de cada vez.
Como já tive filha e já plantei árvores, falta o livro para eu cumprir com as três coisas importantes que, segundo poetas, artistas e filósofos, se deve fazer na vida. Portanto, esse será o próximo passo, o de reunir em um livro os artigos que escrevi até aqui, neste espaço que não irá parar.
No que me compete decidir em minhas negociações com a vida, esta é uma promessa, pois, relembrando, se apenas a condição de amar foi capaz de me fazer aceitar este desafio apenas ela será a responsável por eu continuar aceitando-o. E como diz a letra da música que eu citei no começo ... o que é o amor, onde vai dar, parece não ter fim/ uma canção/ cheirando a mar/ que bate forte em mim ... sempre baterá forte a idéia de que, de alguma maneira, o Espaço de Vida possa dar uma força para vocês que passaram a fazer parte de meus cuidados.
Quanto a livros, espero que seja bem mais do que um.
Até a próxima
Gláucia Telles Sales